Em dom, 30 de mai de 2021 15:41, Laura Andreato escreveu:
Hoje já é quase  junho. Há mais de um ano estamos nessa. Sempre quando saio com medo, vejo esses rabiscos seus. Gosto da sensação da onipresença dessas letras ariscas. Um sinal teimoso de vida, um mapa de caminhos de um, de muitos alguéns.
Te convoco pra me ajudar a dizer não.
Com qual cor devemos fazer isso? Preto da cor do escuro que não deixa ver? Vermelho da cor do drama da revolução ou branco da cor daquilo que se tentou apagar?

Em seg, 31 de mai de 2021 01:21, MTKS escreveu:
Laura,
eu sei que a vida é dura, mas logo vem a cura.
não tenha medo, aonde tudo parece acabar é lá que nós vamos estar. nos lixos e nas doenças, nos escombros e nas sarjetas; mas também vamos estar nas sacadas das propriedades privadas, nos grandes latifúndios e até nos monumentos públicos.
a gente diz não e subverte regra de público e privado porque é tudo mal dividido. a rua é toda nossa porque nós que a construímos, nós que a alimentamos e no fim nos tiram até a comida do prato. então ocupamos, invadimos e nos reapropriamos.
com esses rabiscos ariscos, nosso grito provocativo. nossa arte como ferramenta de denúncia. vandalismo quem faz é o sistema, nós fazemos arte. eles devastam nossas terras, apodrecem nossas águas e envenenam nosso ar. eles só querem nos matar em qualquer brecha que encontrar.
e é por isso mesmo que a gente não pode parar.
as vezes também tenho medo, mas a raiva é maior.
é quase junho, mas 29 de maio de 2021 mostrou que quando um governo é mais perigoso que o vírus, nós vamos pintar de qualquer cor o medo de raiva e dizer não!

 

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Em seg, 21 de jun de 2021 12:31, Laura Andreato escreveu:
Anteontem fui ao armário procurar um vestido para botar em meu medo. Tive dificuldade em encontrar entre os que tenho algo que lhe servisse. Flores, saias rodadas, bordados, nada lhe cabia. Tudo parecia suave e inapropriado. Com que modelo eu conseguiria fantasiá-lo de raiva de maneira convincente? Provei então um paletó de ombros largos pensando em ser uma ameaça, em reagir ao medo fazendo medo. Redesenhei meus olhos para fazer com que parecessem maiores e arregalados. Acomodei com desconforto nas gengivas uma dentadura de vampiro que encontrei em guardados de infância. Pintei meus lábios de vermelho vivo para melhor realce dos caninos brancos. Depois achei por bem me proteger com capacete, joelheiras e cotoveleiras porque antevia o choque inevitável. Quando já tinha muitas camadas sobre meu corpo, olhei novamente o vestido florido e desta vez achei elegante e propício para a ocasião. Coloquei-o por cima de tudo e finalmente me senti pronta para sair à rua. 

Em sex, 09 de jul de 2021 07:54, MTKS escreveu:
hoje o medo quase me fez sucumbir, abri os olhos e despertei antes que os ossos pesassem ainda mais contra a cama fazendo o caminhar impossível.
já nem sei contar as semanas, continuo minhas andanças e faço riscos atemporais.
não há mal que me açoite e na noite me lembro que não tô aqui só de passagem.
é tudo sem massagem, mas no final eu sempre aguento. olhar atento, me nego e me defendo.
meu caminho por vezes é torto, mas eu tô sempre no movimento.
quando eu canso eu sento. não mais corro porque tropeço. mas se eu caio, levanto e recomeço
talvez ninguém entenda meus passos
e faz julgamentos. mas pra tantas expectativas, minha negativa.
perdi meus óculos e sinto os olhos queimarem. só vejo fogo. limpando, curando, transmutando. acredito desacreditando no amanhã.
andando, caindo e levantando. errando, aprendendo e recomeçando. me expressando do meu jeito, me nego a adequação.
então não me resta outra alternativa
a não ser

dizer não

Reivindica-se a qualidade de responder e de pensar negativamente.

 

Porque sim.

Porque não.

Nega-se por:

                      medo

                       raiva

                       arruaça

 

Nega-se a:

                   falar baixo,

                   fechar as pernas

                   ter bons modos.

 

A negativa sussurra de madrugada: shhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh

E a tinta nega na superfície o que o muro protege.

A palavra se espalha a contragosto – porque a negativa é sempre a contragosto.

 

contra crime

contra ausência

noturna

invisível


Caminhamos escoltadas por uma palavra assoprada no escuro.

Uma negativa é um ato de defesa 

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